quarta-feira, 20 de novembro de 2013

LMELT – A influência da implementação de um programa de ginástica laboral (GL) a nível empresarial



A. Almeida & J. Margarido

 

Resumo


Objetivo – Analisar a influência da implementação de um programa de GL de compensação na referência e intensidade de dor/desconforto físico, em trabalhadores da empresa Promol – Indústria de Velas.
Metodologia – Tratou-se de um estudo quantitativo e descritivo de carácter exploratório, sendo utilizada uma amostra composta por 7 pessoas (todas do sexo feminino), com uma média de idade de 51,1 anos. Para a recolha de dados foi utilizada uma versão adaptada do questionário nórdico músculo-esquelético (QNM) e a escala EVA, aplicados antes e depois da implementação do programa de GL.  O programa foi aplicado durante 4 meses, com uma frequência de 1 vez por semana, cada sessão com duração de 45min.
Resultados – Verificou-se que a percentagem total de referências de dor antes da implementação do programa de GL era 28,6% e no final 14,3%. As principais áreas referidas com presença de dor no início foram coluna cervical e punhos/mãos com 71,4% e no final foram as mesmas áreas mas com 42,9%. As áreas com intensidade mais elevada, no início, foram coluna cervical, punhos/mãos, coluna lombar, joelhos e tornozelos/pés com intensidade média 5 e no final do programa a intensidade diminuiu em todas as áreas, principalmente  nos ombros e pernas/joelhos (EVA – 0), coluna cervical e punhos/mãos (EVA – 3).
Conclusão - A implementação do programa de GL ajudou a diminuir as queixas álgicas associadas ao trabalho nos elementos da amostra, a nível do número total de referências de dor, das várias áreas corporais e da intensidade das queixas.

Palavras – Chave: Lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho (LMELT), ginástica laboral (GL), dor, stretching global ativo (SGA).  



INTRODUÇÃO

A designação lesões músculo-esqueléticas relacionadas ou ligadas ao trabalho (LMERT ou LMELT) inclui um conjunto de doenças profissionais altamente incapacitantes, inflamatórias e degenerativas do sistema locomotor (isto é músculos, tendões, ossos, cartilagem, ligamentos, nervos e sistema vascular periférico).
Os movimentos estereotipados, os gestos frequentes, a aplicação de força, as posturas extremas (fora dos ângulos inter-segmentares de conforto articular) e a ausência de períodos de recuperação entre tarefas, constituem os principais fatores de risco no desenvolvimento das lesões músculo-esqueléticas (LME) (Serranheira & Uva, 2002). Caracterizam-se por uma sintomatologia que, frequentemente, engloba dor, parestesias, sensação de peso e fadiga (Serranheira & Uva, 2002).
As LMELT são uma das maiores causas de lesão industrial e são problemáticas pela incapacidade que provocam no trabalhador e pelo que custam às organizações em produção perdida, absentismo por doença, seguros e outros. Em suma, trata-se de um problema individual, organizacional e social com custos incalculáveis (Bernard (1997) citado por Santos J. (2009)).
Estes problemas músculos-esqueléticos devem ser abordados por uma estratégia global de prevenção ou eliminação dos fatores de risco de ordem profissional (prevenção primária) e conjugado com modalidades visando a redução da duração da incapacidade (prevenção terciária) (Costa & Branco, 2002).
 
A prevenção passa principalmente pelo estudo dos postos de trabalho, educação gestual, ginástica laboral (GL), pausas de repouso, respeito pelas prescrições legais de cargas, utilização mais alargada de automatização, entre outros (Costa & Branco, 2002). Relativamente à GL, esta corresponde a um programa específico de atividade física implementado em empresas e consiste na realização de exercícios programados previamente (Mascelani, 2001 cit in Poletto, 2002). É realizada com vista a promover a compensação de movimentos e esforços físicos, bem como o relaxamento dos trabalhadores nos seus próprios ambientes de trabalho (Mascelani, 2001 cit in Poletto, 2002).
Segundo Polito (2002 cit in Poletto, 2002), a GL constitui uma série de exercícios diários, realizados no próprio local de trabalho, levando à prevenção de lesões ocupacionais, normalizando as suas funções corporais e proporcionando momentos de descontração e socialização entre os funcionários dessa empresa.
A GL representa um avanço não só para a prevenção de doenças ocupacionais, mas também um agente motivador de mudança para um estilo de vida mais saudável (Bertolini, 1999 cit in Poletto, 2002). No entanto, existe uma diversidade de doenças ocupacionais resultantes dos diversos tipos de atividade desempenhada.
Neste sentido e segundo Bertolini (1999 cit in Poletto, 2002), existem várias modalidades de GL que são classificadas de acordo com o objetivo a que se destinam. A modalidade mais utilizada é a GL de compensação que consiste na realização de exercícios físicos durante as pausas de trabalho, interrompendo a monotonia operacional e aproveitando esses intervalos para executar exercícios específicos de compensação aos esforços repetitivos e às posturas inadequadas nos postos operacionais (Poletto, 2002). Estes exercícios poderão ser, por exemplo, exercícios de estiramento muscular, de estabilização central, entre outros.
Para Zilli (2002 cit in Poletto, 2002), os programas de GL podem ser adequados e rentáveis a qualquer tipo de empresa, desde que seja conhecido previamente o sistema de trabalho, atividades laborais e esforços físicos, de forma a que os exercícios estejam adaptados aos diferentes grupos e setores da empresa. O envolvimento com as áreas de Segurança e Medicina do Trabalho promovem a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais, através do diagnóstico ergonómico detalhado da empresa e da informação quanto à saúde dos trabalhadores envolvidos no programa.

 

METODOLOGIA


 A realização deste trabalho teve como objetivo avaliar a influência da implementação de um programa de GL de compensação na referência e intensidade de dor/desconforto físico, em trabalhadores da empresa Promol – Indústria de Velas. Neste estudo foi considerado que dor/desconforto físico corresponde a sensação dolorosa e parestesias (dormência, formigueiro, sensação de peso).

 


Amostra

Neste trabalho pretendeu-se efetuar um estudo quantitativo e descritivo de carácter exploratório, sendo utilizada uma amostra composta por 7 pessoas (todas do sexo feminino). A média de idade da amostra é de 51,1 anos, a média de peso 71,6 kg e a média de atividade laboral 24,6 anos. Trata-se de uma amostra não probabilística selecionada por critérios de conveniência tendo em conta critérios de inclusão (ser trabalhador da Promol há pelo menos um ano; trabalhador com episódio(s) de queixas de dor/desconforto físico nos últimos 12meses; trabalhador com disponibilidade de horário pós-laboral) e critérios de exclusão (trabalhador iniciar tratamento de fisioterapia durante aplicação de programa de GL; situação de baixa por acidente de trabalho ou outra situação; percentagem de faltas às sessões de GL superior a 35% do número total de sessões).
 

Instrumentos de recolha de dados

Foi utilizada uma versão adaptada do questionário nórdico músculo-esquelético (QNM) (Serranheira et al, 2003) e a escala visual análoga (EVA). Também, foi realizada uma tabela para registo de assiduidade e um questionário de satisfação com recurso à escala de Likert.   


Procedimentos e tratamento de dados

Para a realização deste estudo foi efetuada uma avaliação inicial com aplicação do QNM e da escala EVA a todos os trabalhadores que mostraram interesse em participar nas sessões de GL. Posteriormente, tendo em conta o tipo de atividade laboral desempenhada e os resultados iniciais, foi definido um programa de GL de compensação. O programa foi aplicado durante 4 meses, com uma frequência de 1 vez por semana, cada sessão com duração de 45min e utilizadas técnicas de stretching global ativo (SGA) e alongamentos analíticos.

Após decorridos os 4 meses foi efetuada uma avaliação final com aplicação dos mesmos questionários/escalas usados na avaliação inicial e aplicação de um questionário de satisfação com 3 afirmações:

1 - Na sua opinião, no geral sentiu melhoria das suas dores com a realização da GL;
2 - Na sua opinião, a realização da GL foi benéfica para a melhoria do bem estar geral;
3 - Na sua opinião, é importante continuar a realizar a GL.

Para o processamento dos dados estatísticos, foi utilizado o programa Microsoft® Office Excel® 2007.

  

 

RESULTADOS 


Após análise dos QNM, verificou-se que a percentagem total de referências de dor nos últimos 7 dias antes da implementação do programa de GL era 28,6%.

No final da implementação do programa a percentagem total de referências nos últimos 7 dias era 14,3% (gráfico 1).
 


 
Gráfico 1 – Percentagem total de referências de dor no início e no final da implementação do programa de GL.



As principais áreas referidas com presença de sintomatologia de dor, nos últimos 7 dias, antes do início da GL, foram coluna cervical e punhos/mãos (71,4%), ombros, coluna lombar, pernas/joelhos e tornozelos/pés (28,6%). Após a implementação do programa de GL, registou-se uma diminuição da percentagem de referências de dor principalmente para a área da coluna cervical e punhos/mãos (42,9%), ombros e pernas/joelhos com ausência de referências (0%). A percentagem de referências para tornozelos/pés manteve-se igual (gráfico 2).

 

 
Gráfico 2 – Percentagem total de referências de dor por zona corporal no ínicio e no final da implementação do programa de GL.
 
Relativamente à intensidade de dor por cada zona corporal, foi utilizada a EVA. Verificou-se que nos últimos 7 dias antes da implementação do programa de GL as áreas com intensidade mais elevada foram a coluna cervical, punhos/mãos, coluna lombar, joelhos e tornozelos/pés com intensidade média 5 e os ombros com intensidade média 4. No final da implementação do programa a intensidade da dor tinha diminuído em todas as zonas corporais, principalmente  nos ombros e pernas/joelhos com intensidade média 0, coluna cervical e punhos/mãos com intensidade média 3 (gráfico 3).
 
 

 
Gráfico 3 – Resultados da EVA (intensidade média) por zona corporal no ínicio e no final da implementação do programa de GL.
 

Resultados dos questionários de satisfação 


No que diz respeito aos questionários de satisfação aplicados no final do programa de GL, verificou-se que na primeira afirmação 57,1 % da amostra respondeu concordo totalmente e 42,9% concordo. Na segunda afirmação, 71,4% selecionou concordo totalmente e 28,6 concordo. Para a última afirmação, 42,9 % da amostra respondeu concordo totalmente e 57,1 % concordo. Para as restantes opções da escala de Likert em todas as afirmações obteve-se 0% (gráfico 4).  

 

 
Gráfico 4 – Resultados do questionário de satisfação das classes de GL.




DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 



Na fase de avaliação inicial, todos os elementos da amostra tinham efetuado uma paragem de descanso laboral de 2 semanas e referiram que devido a isso apresentavam menos queixas do que o habitual. Esta paragem poderá ser um fator que terá levado ao resultado de uma reduzida percentagem total do número de referências de dor inicial. No entanto, através dos resultados obtidos verifica-se a influência do programa de GL com uma redução de 50% na percentagem total final.

No que diz respeito às áreas corporais, as principais referidas com presença de sintomatologia de dor, no início e final da GL, foram coluna cervical e punhos/mãos, o que vai de encontro ao tipo de atividade laboral executada (predominantemente atividades repetitivas de preensão grossa e fina). Contudo, registou-se uma diminuição de 40%, para ambas as áreas, no final da implementação do programa de GL.

Relativamente à intensidade média de dor por cada zona corporal, verificou-se uma diminuição em todas as áreas comparativamente entre os resultados iniciais e finais, existindo até áreas que deixaram de apresentar queixas, nomeadamente ombros e pernas/joelhos.

Em relação aos resultados dos questionários de satisfação sobre os efeitos do programa de GL, todos os participantes expressaram as suas opiniões em “concordo” e “concordo totalmente”, o que reflete a relevância deste tipo de programas nas empresas por parte dos trabalhadores.
 



CONCLUSÃO DO ESTUDO  


Através da análise de todos os dados, pode-se concluir que neste estudo a implementação do programa de GL de compensação ajudou a diminuir as queixas álgicas associadas ao trabalho nos vários elementos da amostra utilizada, quer a nível do número total de referências de dor, das várias áreas corporais e da intensidade das queixas, o que vai de encontro a outros estudos do mesmo âmbito. No entanto, devido à dimensão reduzida da amostra estas conclusões não podem ser aplicadas à população.  Assim, salienta-se a extrema necessidade de efetuar mais estudos no sentido de se comprovar os efeitos da GL nas referências de dor e suas características, em populações semelhantes, assim como avaliar os benefícios para a própria empresa, tentando utilizar amostras de dimensão mais elevada e períodos de implementação dos programas de GL maiores. Por outro lado, Coulter (1994 cit in Stude, 1999) menciona que existe uma crescente concordância sobre a satisfação do cliente ser um indicador importante da qualidade dos serviços de saúde. Desta forma, considerou-se relevante perceber a opinião dos participantes deste estudo sobre a implementação do programa de GL. Neste âmbito, da análise das opiniões expressas pelos elementos da amostra, pode dizer-se que o programa de GL de compensação parece ter efeitos positivos no bem-estar geral, descontração e socialização.
 

BIBLIOGRAFIA 


Costa, T., & Branco, P. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - Lesões Músculo-Esqueléticas Ligadas ao Trabalho: Lombalgias em Medicina do Trabalho [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
Miranda, L. C., & Uva, A. S. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - A Medicina do Trabalho e as LMELT: sua importância em patologia do trabalho. [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
Paulo, U. d. S., & Queiroz", P. d. C. L. d. (2003).Ginástica Laboral na Biblioteca Central. www.ciagri.usp.br/~dvatcom/ ginasticalaboral.htm. Retrieved 1 Junho, 2005, from the World Wide Web.
Poletto, S. S. (2002). Avaliação e implementação de Programas de Ginástica Laboral, implicações metodológicas. Unpublished Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
Salerno, D. F., Copley-Merriman, C., Taylor, T. N., Shinogle, J., & Schulz, R. M. (2002). A review of functional status measures for workers with upper extremity disorders. Occup Envirn Med, 59, 664-670.
Serranheira, F., & Uva, A. S. (2002). Doenças Reumáticas Ligadas ao Trabalho - Lesões Músculo-Esqueléticas Ligadas ao Trabalho: Aspectos Gerais de Diagnóstico e Prevenção [Compact Disk]. Lisboa: Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.
Serranheira, F., Santos, S., Pereira, M., & Cabrita, M. (2003). Auto-Referência de Sintomas de Lesões Músculo-esqueléticas Ligadas ao Trabalho (LMELT) numa Grande Empresa em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2.
Stude, D. E. (1999). Spinal Rehabilitation (1st ed.). USA: Appleton & Lange.

 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mochilas Escolares - Inimigas da boa postura?

 
 
 

Um aspeto que merece grande atenção no âmbito da saúde postural nas escolas são as mochilas. Estas constituem uma forma de transportar peso, sendo, portanto, frequentemente usadas por crianças em idade escolar para carregar o seu material. Quando cargas excessivas são transportadas por longos períodos de tempo a coluna manifestará diversos mecanismos de compensação, conduzindo à fadiga muscular e desgaste das articulações da coluna e caixa torácica, o que resultará no aparecimento de dor. A ocorrência de dor ao nível da coluna e ombros em jovens adolescentes varia entre os 8% e 74% na literatura, estando essa dor associada ao transporte de mochilas pesadas.
Segundo um estudo realizado por Pascoe et al (1997), os diferentes métodos de transporte da mochila (transportá-la num ou em ambos os ombros), com 17% do peso corporal, em crianças entre os 11 e os 13 anos, influenciaram consequências como a projeção da cabeça para a frente; elevação e rotação interna dos ombros e inclinação do tronco para a frente. Estas alterações estruturais resultaram na diminuição do equilíbrio, facilitando a ocorrência de quedas; o desvio lateral da coluna e a elevação do ombro quando a mochila era transportada unilateralmente.
Com o objetivo de prevenir alterações posturais, provocadas pelo uso incorreto de mochilas, e de acordo com a American Phisical Therapy Association (APTA), existem formas mais corretas de transportar as mochilas, tais como:
   •  A mochila deve ser pesada regularmente;
   •  Utilizar sempre as duas alças da mochila, em ambos os ombros, para o peso ficar melhor distribuído e não se verificarem tantas assimetrias, deve ter-se em atenção que as alças não interfiram com a circulação sanguínea e sistema nervoso; elas devem ser almofadadas e ajustáveis com uma largura de aproximadamente 4 centímetros. Deve existir um cinto para apertar as alças acima do peito e estas devem estar o mais próximas possível uma da outra;
   •   A mochila deve estar o mais próxima possível do corpo e bem ajustada a este. A parte posterior da mochila deve possuir um acolchoamento suficientemente espesso e rígido mas que, no entanto, se adapte bem ao corpo da criança;
   •  A parte superior da mochila deverá estar ao nível da sétima vértebra cervical e a inferior ao nível da região lombar, pelo que o tamanho da mochila tem que estar adaptado a cada criança;
   •  Os objetos mais pesados devem ser colocados mais perto da coluna, para que o peso esteja melhor distribuído e a mochila deve ter múltiplos compartimentos para repartir os vários objetos;
   •  Na mochila deve existir um cinto ao nível da cintura de forma a repartir o peso entre os ombros e a zona lombar, assim como evitar que a mochila oscile;
   •  A criança deve pousar sempre que possível a mochila.
Não existe um consenso quanto ao peso recomendado a transportar nas mochilas, pelo que são sugeridos, por vários autores, diferentes valores.

Segundo Brackley e Stevenson, Cottalorda et al (2004), citado por Fernandes (2005), o limite máximo de peso recomendado a transportar nas mochilas é de 10% a 15% do peso corporal da criança.

Segundo Fernandes (2005), as mochilas devem ser transportadas simetricamente nos dois ombros.

De acordo com Fernandes (2005), existem orientações específicas, quer para pais/tutores como para professores e direção dos estabelecimentos de ensino, para o uso das mochilas:

   Por parte dos professores:

  •  Sensibilizar os alunos acerca do excesso de peso transportado nas mochilas;
  •  Incentivo ao transporte apenas do material necessário;
  •  Utilização das folhas avulso para os trabalhos de casa de modo a que os cadernos fiquem mantidos na escola;
  •  Incentivar a manutenção da boa postura.

   Por parte da direção:

  •  Manter sempre os professores atualizados e atentos aos aspetos relacionados com as questões posturais das crianças;
  •  Organizar a escola de modo a que o material do aluno permaneça na mesma sala, fazendo com que as crianças o retirem apenas no final do dia.

A intervenção em classes com enfoque nesta temática é vantajosa, uma vez que as crianças têm oportunidade de realizar tarefas de forma lúdica e em grupo, o que se revela mais motivador e estimulante para elas. Este tipo de classes é importante para um bom conhecimento corporal e noção de corpo, equilíbrio e controlo postural.
É necessário aproveitar ao máximo as possibilidades do desenvolvimento psicomotor da criança, dotando-a de hábitos e atitudes que poderão facilitar uma melhor formação e socialização futuras.

Sara Lourenço,
Fisioterapeuta Physioclem

Prevenção de quedas




Causas para uma queda

 Existem vários fatores de risco que predispõem uma pessoa a sofrer uma queda. Alguns desses fatores podem ser internos, ou seja relacionados com a idade e a presença de algumas doenças e, consequente, medicação.
 Tendo em conta, as alterações fisiológicas que ocorrem a nível ósseo, muscular, articular, cardiorrespiratório e neurológico com o aumento da idade (referidas nos nossos últimos posts), recordamos que a pessoa idosa apresenta tendência para uma postura mais cifótica (corcunda), perda de massa e força muscular principalmente ao nível das pernas, cansaço fácil e diminuição do equilíbrio e coordenação, muitas das vezes associado a défices visuais e auditivos.
Todos estes fatores internos, originam uma alteração na marcha, que se torna mais lenta, com passos mais pequenos e juntos ao chão, fazendo com que a pessoa facilmente possa tropeçar e cair. De igual modo, os seus reflexos para evitar uma queda também são mais lentos e menos eficientes.
 Por outro lado, também existem fatores de risco externos que estão relacionados com questões sociais e ambientais como buracos na rua, piso escorregadio, aspetos habitacionais (tapetes, móveis, escadas, animais domésticos,…) e pessoais (vestuário, calçado,…).  

Consequências de uma queda 

 As principais consequências de uma queda nas pessoas idosas são escoriações, fraturas com consequente hospitalização, e morte.
 Na maioria dos casos, a ocorrência de uma queda, pelos danos físicos que causa (principalmente a imobilidade temporária), leva a que atividades que antes a pessoa realizava sem ajuda e sem dificuldades, como vestir-se, higiene pessoal, ir às compras, entre outras, podem ficar comprometidas temporária ou permanentemente.
Estas situações, infelizmente, são muito comuns em situações de queda que causam fratura de algum osso das pernas, levando a imobilização com consequente perda da marcha.
 Por outro lado, o impacto da queda, normalmente, não se reflete só na pessoa que a sofreu mas também nos seus familiares, que precisam ajudar no tratamento e recuperação do idoso.
 Para além de danos físicos, uma queda pode causar sentimentos de medo, fragilidade e insegurança. Portanto, todos esses sentimentos podem trazer importantes modificações emocionais, psicológicas e sociais, fazendo com que muitos idosos deixem de realizar atividades que costumavam fazer e percam autonomia gradualmente.

Dicas para prevenção de quedas

As quedas não acontecem apenas devido a um único fator, mas sim à combinação de vários fatores de risco. Se conseguirmos eliminar alguns fatores a probabilidade de sofrer uma queda também diminui.

Aqui ficam algumas dicas de prevenção:

 - manter-se o mais ativo possível, realizando atividade física para ganhos de força, flexibilidade e equilíbrio;
 - consultar um oftalmologista uma vez por ano devido às alterações visuais;
 - utilizar sempre tapete antiderrapante na banheira ou poliban;
 - na dificuldade de se baixar durante o banho utilizar um banco resistente e com bases antiderrapantes;
 - evitar camas e cadeiras muito baixas, pois dificultam o sentar/levantar;
 - nunca andar no escuro, se necessário utilizar luzes de presença durante a noite;
 - manter espaço aberto entre móveis para perfeita circulação;
 - não utilizar tapetes pequenos na casa e não ter objetos espalhados pelo chão;
 - manter os fios dos aparelhos próximos das tomadas;
 - escadas bem iluminadas, de preferência com corrimões dos 2 lados, e fita antiderrapante nos degraus;
 - na cozinha, colocar os utensílios que usa mais vezes em uma altura de melhor alcance;
 - sentar-se para vestir calças, meias e sapatos;
 - não usar roupas compridas que arrastem no chão;
 - preferir chinelos todos fechados e sapatos com sola antiderrapante;
 - não carregar objetos grandes que dificultem a visão do caminho a fazer;
 - se tiver animais de estimação, procure deixá-lo no quintal ou preso quando estiver a fazer as suas tarefas (cozinhar, estender roupa,…).  

A equipa Physioclem!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Intervenção da Fisioterapia na Unidade de Cuidados Continuados da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré


Resumo


A realização deste estudo teve como objetivo primordial analisar o trabalho desenvolvido pela Fisioterapia através do grau de funcionalidade/dependência que os utentes alcançaram, até à data de alta, na Unidade de Média Duração e Reabilitação da Unidade de Cuidados Continuados e Integrados (UCCI) da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré (CNSN), desde Novembro de 2007 a Dezembro de 2012.

Tratou-se de um estudo quantitativo e descritivo longitudinal em que foi utilizada uma amostra composta por 84 utentes (44 do sexo feminino e 40 do sexo masculino) com uma média de idade de 69 ± 14,9 anos, divididos em 3 grupos consoante diagnóstico clínico (neurológico, ortopédico e outros diagnósticos). Para a recolha de dados foi realizada uma tabela de levantamento de dados e o Índice de Barthel (IB), utilizando-se os valores da avaliação á data de entrada e os à data de alta.

Verificou-se que a média dos valores do IB inicial (IBI) foi 42,3 ± 30,5 e a média dos valores do IB final (IBF) foi 65,1 ± 31,7 para a amostra (n=84), obtendo-se uma média de diferença entre IBF e IBI de 22,8 valores. Através destes resultados concluiu-se que, desde a existência da Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN, o impacto da intervenção da fisioterapia na capacidade funcional dos seus utentes teve um efeito importante, com resultados estatisticamente significativos (valor p=0,000), ajudando a melhorar a independência e autonomia dos utentes na realização das atividades da vida diária (AVD’s).

Palavras – Chave: Envelhecimento, dependência, Unidade de Cuidados Continuados e Integrados, Fisioterapia, funcionalidade, autonomia, atividades da vida diária, Índice de Barthel

INTRODUÇÃO


A população geriátrica, nomeadamente, o grupo dos mais idosos constitui um grupo mais vulnerável ao estabelecimento de quadros clínicos associados a algum grau de dependência, que por vezes antecipa a institucionalização do idoso.

Conceituar envelhecimento é uma tarefa complexa, pois envolve vários fatores que interagem. Para Jekel-Neto e Cunha (2002) (cit in Coelho et al, s.d.), o envelhecimento pode ser conceituado como um processo dinâmico e progressivo, no qual há alterações morfológicas, funcionais e bioquímicas, que vão modificando progressivamente o organismo, tornando-o mais suscetível a agressões intrínsecas e extrínsecas.

A doença não é sinónimo de envelhecimento, mas alguns estudos utilizando uma metodologia longitudinal, como os de Ermida (1999) e Hall et al (1997) confirmam o aumento exponencial da doença com a idade. São habitualmente doenças de longa duração, denominadas doenças crónicas, que não sendo exclusivas das pessoas idosas, são efetivamente estas que têm maior probabilidade de as sofrer (Ribeiro, 2005). Segundo este autor, estas doenças têm que ser geridas, dado que não são curáveis, pelo que neste contexto o idoso/família tem de aprender a conviver com elas no seu quotidiano.

Este aumento de longevidade, associado a doença crónica e incapacidade coloca novos desafios aos profissionais de saúde, nomeadamente, equacionar a problemática da qualidade de vida, pois tão importante como dar anos à vida, é necessário dar vida aos anos. Na verdade, falar em qualidade de vida na velhice compreende aspetos como independência, autonomia, continuidade de papéis sociais, apoio formal e informal, segurança ambiental, saúde (Rebelatto e Morelli, 2004).

No estudo realizado por Paúl (1997), a perda da capacidade funcional revelou-se como a principal razão encontrada na decisão de institucionalização de indivíduos idosos. Para responder a este problema da elevada incapacidade, nomeadamente, no grupo de pessoas idosas, surgiram em alguns países unidades de saúde orientadas para a recuperação funcional das pessoas que apresentam uma perda funcional potencialmente recuperável, resultante de doença crónica, ou de um processo patológico agudo de natureza médica, traumatológica ou cirúrgica. Os utilizadores destas unidades são alvo de avaliações integrais multidisciplinares que permitem a identificação das principais incapacidades e consequente elaboração/implementação de planos terapêuticos individualizados (Ferrín, 2005 cit in Araújo et al, 2007).

Em Portugal, foi implementada a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), no âmbito dos Ministérios da Saúde e do Trabalho e da Solidariedade Social, criada pelo Decreto-Lei n.º 101/2006, de 6 de Junho, com o objetivo de prestar cuidados continuados integrados a pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência.

Os Cuidados Continuados Integrados estão centrados na recuperação global da pessoa, promovendo a sua autonomia e melhorando a sua funcionalidade, no âmbito da situação de dependência em que se encontra (www.rncci.min-saude.pt).
A RNCCI, a nível de internamento, apresenta 4 tipos de Unidade, sendo elas: Unidade de Convalescença, Unidade de Média Duração e Reabilitação (tipologia utilizada para este estudo), Unidade de Longa Duração e Manutenção e Unidade de Cuidados Paliativos.
As Unidades de Média Duração e Reabilitação têm como finalidade prestar cuidados a doentes com perda de autonomia potencialmente recuperável que requerem cuidados de saúde que, pela sua frequência, duração, ou ausência de apoio social, por parte dos cuidadores e/ou equipas de cuidados continuados integrados, não podem ser prestados no domicílio, com previsibilidade de internamento superior a 30 dias e inferior a 90 dias consecutivos.
Assim, este tipo de unidade tem por finalidade a estabilização clínica, a avaliação e a reabilitação integral da pessoa que se encontre em situação de perda de autonomia (www.rncci.min-saude.pt).
A abordagem da fisioterapia nestas instituições visa promover uma melhor qualidade de vida e independência aos idosos, uma vez que o idoso institucionalizado apresenta diversas necessidades sociais, de saúde e autonomia nas atividades diárias. Essa situação justifica a importância da abrangência dos métodos de avaliação funcional, especialmente no tratamento de idosos frágeis, que apresentam vários problemas de saúde (Gloth et al,1995).

A consciência dos efeitos que a idade provoca na capacidade de aprender e executar as habilidades motoras coloca o fisioterapeuta em condições de ajudar o adulto idoso, no sentido de aumentar a sua participação numa série de atividades de lazer ou profissionais, além de orientá-lo a desenvolver a sua capacidade de adaptação, em resposta às limitações físicas (Pollock, 1992).

Araújo e Ceolim (2007), afirmam que os idosos que se encontram independentes nas AVDs precisam de ser estimulados para manter essa condição. Por outro lado, Montenegro e Silva (2007), ao estudarem os efeitos de um programa de fisioterapia como promotor de saúde na capacidade funcional de mulheres idosas institucionalizadas, evidenciaram que 60% dos elementos do grupo experimental obtiveram melhoria significativa no desempenho das atividades funcionais, após intervenção, enquanto que no grupo controle, apenas 35% dos elementos apresentou desempenho satisfatório nas atividades funcionais avaliadas.

Atualmente, para avaliar a incapacidade para a realização das AVD’s continua-se a utilizar o Índice de Barthel (IB), essencialmente em contexto hospitalar, unidades de convalescença e centros de reabilitação e vários autores consideram-no o instrumento mais adequado (Vilarmau et al, 2000; Sabartés et al. 2003; Duncan et al, 2000 cit in Araújo, 2007). A fácil aplicação e interpretação, baixo custo de aplicação, o poder ser repetido periodicamente (o que permite monitorizações longitudinais), o consumir pouco tempo no seu preenchimento são algumas das características que fazem desta medida construída sobre bases empíricas uma das mais utilizadas na clínica e na investigação para avaliar o grau de dependência dos idosos para realizar dez atividades básicas do seu quotidiano (comer, higiene pessoal, uso dos sanitários, tomar banho, vestir e despir, controlo de esfíncteres, deambular, transferência da cadeira para a cama, subir e descer escadas (Mahoney e Barthel, 1965)). Na versão original a pontuação da escala varia de 0-100 (com intervalos de 5 pontos). A pontuação mínima de zero corresponde a máxima dependência para todas as atividades de vida diárias (AVD) avaliadas e a máxima de 100 equivale a independência total para as mesmas AVD avaliadas.

Para além destas qualidades (Paixão e Reichenheim, 2005 cit in Araújo, 2007), um estudo de revisão sobre 30 instrumentos de avaliação do estado funcional do idoso confirmou que o IB é o que possui resultados de fidelidade e validade mais consistentes. Também em contexto comunitário num estudo sobre a fidelidade de escalas usadas em doentes com AVC, confirmou-se que o IB mostrou ser um instrumento de ótima fidelidade.

Este instrumento de recolha de dados foi validado e adaptado para a população portuguesa pelos Fisioterapeutas Paulo Lima e Ricardo Loução em 1995.

Os cuidados a prestar nas Unidades de Internamento de Média Duração e Reabilitação destinam-se, fundamentalmente, à reabilitação, apoio social e à rápida reintegração dos seus utilizadores no seu meio habitual de vida, em condições da maior autonomia possível.
Tendo em conta estes aspetos, este estudo teve como objetivo geral analisar o trabalho desenvolvido pela Fisioterapia através do grau de funcionalidade/dependência que os utentes alcançaram, até à data de alta, na Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN nos seus cinco anos de existência. De igual modo, também foram estipulados objetivos específicos, nomeadamente verificar o grau de funcionalidade/dependência dos utentes consoante o seu diagnóstico clínico.

METODOLOGIA


Amostra


A realização deste trabalho compreendeu um estudo quantitativo e descritivo longitudinal, uma vez que pretendeu-se fazer a análise da intervenção da fisioterapia nos utentes internados na Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN desde Novembro de 2007 a Dezembro de 2012.

Foi utilizada uma amostra composta por 84 utentes (44 do sexo feminino e 40 do sexo masculino) com uma média de idade de 64 ± 14,9 anos (Tabela 1 e Gráfico 1). Tendo em conta o diagnóstico clínico, a amostra apresentava 25 utentes com um diagnóstico ortopédico[1] (29,8%), 51 utentes com um diagnóstico neurológico1 (60,7%) e 8 utentes com diagnóstico que não se enquadravam nos anteriores1 (9,5%) (Tabela 2).
 
A seleção da amostra foi efetuada por conveniência tendo em conta os critérios de inclusão (utentes que estiveram internados na Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN no período de Novembro de 2007 a Dezembro de 2012 e com indicação para realização de Fisioterapia) e exclusão (utentes que estiveram internados nesta Unidade no período de Novembro de 2007 a Dezembro de 2012 sem indicação para realização de Fisioterapia; morte durante o período de internamento e utentes internados com alta prevista após Dezembro de 2012). 
 

 
 
  
Gráfico 1 – Percentagem de utentes da amostra consoante diagnóstico clínico



 

Instrumentos de recolha de dados


Para a recolha de dados foi realizada uma tabela de levantamento de dados, com o objetivo de caracterizar a amostra, composta pelos seguintes itens: nome do utente, idade, sexo, diagnóstico clínico, data de internamento e data de alta.

Também, foi utilizado o Índice de Barthel (IB) modificado, nomeadamente os valores da avaliação inicial, à data de entrada, e da avaliação final, à data de alta, de cada utente.

Procedimentos e tratamento de dados


Para a realização deste estudo foram consultados os processos clínicos de todos os utentes que estiveram internados na Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN, no período de Novembro de 2007 a Dezembro de 2012. Após o preenchimento da tabela de levantamento de dados e recolha dos valores do IB (valores da avaliação inicial e da avaliação  foi efetuada a seleção da amostra tendo em conta os critérios de inclusão e exclusão definidos.

Para o processamento dos dados estatísticos, foi utilizado o programa estatístico SPSS versão 20. Utilizaram-se os testes paramétricos para amostras emparelhadas, nomeadamente o teste t-Student. Para análise dos dados relativos aos 3 grupos (Ortopédico n=25; Neurológico n=51 e Outros n=8) foram utilizados os testes não paramétricos para amostras emparelhadas, nomeadamente o teste de Wilcoxon. Foi considerado um nível de significância de 0.05 e um intervalo de confiança de 95%.
 

RESULTADOS


Verificou-se que a média dos valores do IB inicial (IBI) foi 42,3 ± 30,5 e a média dos valores do IB final (IBF) foi 65,1 ± 31,7 para a amostra (n=84), obtendo-se uma média de diferença entre IBF e IBI de 22,8 valores. Assim, verifica-se que a média dos valores do IB obtidos na avaliação final aumentou em relação aos valores do IB obtidos na avaliação inicial, sendo esta diferença estatisticamente significativa com valor p = 0,00 (Tabela 3 e gráfico 2).



 
 
 
 
Gráfico 2 – Variação da média dos valores IBI e IBF da amostra

Em relação ao grupo ortopédico, verificou-se que a média dos valores do IB inicial (IBI) foi 62,8 ± 29,5 e a média dos valores do IB final (IBF) foi 82,0 ± 28,4, obtendo-se uma média de diferença entre IBF e IBI de 19,2 valores.

Para o grupo neurológico, a média dos valores do IB inicial (IBI) foi 35,5 ± 25,9 e a média dos valores do IB final (IBF) foi 56,3 ± 30,3, obtendo-se uma média de diferença entre IBF e IBI de 20,8 valores.

Para o grupo de outros diagnósticos, a média dos valores do IB inicial (IBI) foi 21,4 ± 29,7 e a média dos valores de IB final (IBF) foi 68,6 ± 30,7, obtendo-se uma média de diferença entre IBF e IBI de 47,2 valores.

Assim, constatou-se que a média dos valores do IB obtidos na avaliação final dos 3 grupos aumentou em relação aos valores do IB obtidos na avaliação inicial, sendo esta diferença estatisticamente significativa nos 3 grupos com valor p = 0,000, valor p = 0,000 e valor p = 0,012, respetivamente (Tabela 4).

A partir da análise descritiva, observa-se que a variação do IB foi maior no grupo de outros diagnósticos clínicos (47,2 valores) em relação ao grupo neurológico (20,8 valores) e ortopédico (19,2 valores), que por sua vez corresponde ao grupo com menor variação (Gráfico 3).



 

  

Gráfico 3 - Variação da média dos valores do IBI e IBF nos diferentes grupos.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS


Segundo Araújo (2007), a monitorização da capacidade funcional dos idosos no âmbito dos programas de reabilitação nas unidades de convalescença e reabilitação, é efetuada utilizando o valor que resulta da diferença entre o IBF (pontuação do IB na alta) e o IBI (pontuação do IB inicial), sendo que um valor positivo corresponde a uma melhoria na capacidade funcional e um resultado negativo, a uma deterioração no estado funcional da pessoa idosa.

No estudo realizado, é possível referir que na amostra (n=84) verificou-se uma melhoria nos valores da média final do IB, sendo eles 65,1 ± 31,7 valores, uma vez que os valores da média inicial do IB eram 42,3 ± 30,5 valores. Assim, obteve-se uma média das diferenças do IB positiva (22,8 ± 21,2 valores) que corresponde a uma melhoria na capacidade funcional. Apesar de na globalidade os resultados serem positivos é de mencionar a existência de 4 casos com resultado negativo (3 casos no grupo neurológico e 1 no grupo ortopédico).

Estes resultados vão de encontro aos resultados obtidos por Brandão (2008) que verificou que na UCCI da Santa Casa da Misericórdia de Arouca a média do IB na fase final de internamento (90 dias) é superior do que a inicial.

No âmbito da prática clínica, a proposta de Granger e colaboradores, citado por Araújo (2007), refere que a pontuação de 60 valores corresponde ao “ponto de viragem” entre independência/ dependência. Segundo o mesmo autor, com uma pontuação acima de 60, a maioria dos utentes são independentes para cuidados pessoais essenciais como deslocar-se sem auxílio, comer, asseio pessoal e controle de esfíncteres, e com valores igual ou superiores a 85, os indivíduos são habitualmente independentes necessitando apenas de uma assistência mínima.

Com base nas informações anteriores, constata-se que neste estudo, inicialmente a amostra encontrava-se num grau de dependência (IBI 42,3 ±30,5 valores) e após realização de fisioterapia apresentavam à data de alta um grau de independência para cuidados pessoais essenciais uma vez que a média é superior a 60 valores (IBF 65,1 ± 31,7 valores). Apesar da melhoria da funcionalidade e autonomia dos utentes, estes continuam a necessitar de assistência de terceira pessoa nas AVD’s.

Para analisar o impacto da intervenção na capacidade funcional, Granger e colaboradores, citado por Araújo (2007), recorrem a uma medida que se obtém da divisão da média das diferenças do IB pelo desvio-padrão do mesmo e que tem a seguinte interpretação: um valor de 0,2 corresponde a um efeito pequeno da intervenção, 0,5 traduz um efeito moderado, e 0,8 um efeito importante.

No estudo realizado, obteve-se um valor de 1,1 pela divisão da média das diferenças do IB pelo desvio-padrão, verificando-se que o impacto da intervenção da fisioterapia na capacidade funcional teve um efeito importante na amostra (1,1 > 0,8).

Relativamente aos grupos baseados nos diagnósticos clínicos, constatou-se que nos 3 grupos obteve-se uma média das diferenças do IB positiva (grupo ortopédico – 19,2 ± 18,5 valores; grupo neurológico – 20,8 ± 18,5 valores; grupo dos outros diagnósticos – 47,2 ± 27,6 valores) que corresponde a uma melhoria na capacidade funcional, sendo essa mais evidente no grupo de outros diagnósticos clínicos e menos relevante no grupo ortopédico. Estes resultados podem ser explicados com base no valor do IB inicial que era mais elevado no grupo ortopédico (IBI – 62,8 ± 29,5) em comparação com os outros 2 grupos (neurológico – 35,5 ± 25,9; outros – 21,4 ± 29,7).

No que diz respeito ao grau de (in)dependência os grupos neurológico e outros, inicialmente apresentavam um grau de dependência com IBI inferior a 60 valores, enquanto que o grupo ortopédico apresentava um valor superior a 60. Após a realização de fisioterapia, à data de alta o grupo de outros diagnósticos apresentava um IBF superior a 60 (68,6 ± 30,7) e o grupo ortopédico manteve resultados acima desse valor (82,0 ± 28,4), correspondendo a um grau de independência para cuidados pessoais essenciais. Contudo, o grupo neurológico não ultrapassou esse valor, registando-se um IBF de 56,3 ± 30,3. Apesar deste resultado, 49,0% dos utentes deste grupo apresentavam um IBF superior a 60 valores.

Quanto ao impacto da intervenção da fisioterapia na capacidade funcional dos 3 grupos, obteve-se um resultado de 1,0 para o grupo ortopédico, 1,1 para o grupo neurológico e 1,7 para o grupo de outros diagnósticos, constatando-se que esse impacto teve um efeito importante nos 3 grupos.

CONCLUSÃO


Após a discussão dos resultados obtidos neste estudo, é possível concluir que, desde a existência da Unidade de Média Duração e Reabilitação da UCCI da CNSN, o impacto da intervenção da fisioterapia na capacidade funcional dos seus utentes teve um efeito importante, com resultados estatisticamente significativos, ajudando a melhorar a independência e autonomia dos utentes na realização das AVD’s.

Esse impacto foi mais evidente nos utentes com outros diagnósticos e nos utentes com diagnóstico neurológico. No entanto, este último grupo apresenta um grau de independência baixo o que pode proporcionar um aumento no tempo médio de internamento.

Assim, constata-se que, apesar de se terem obtido resultados positivos, é importante continuar a melhorar a capacidade funcional de todos os utentes, mas principalmente dos utentes com diagnóstico neurológico, melhorando a readaptação ao domicílio e evitando nova institucionalização.

Para tal, torna-se relevante a necessidade de formação específica e direcionada para os cuidados continuados e integrados, como também para a área de fisioterapia em neurologia, uma vez que a maior percentagem de utentes internados nesta Unidade apresentam diagnóstico clínico neurológico (60,7%), sendo também os que possuem maior grau de dependência.

Por outro lado, também é importante melhorar o trabalho em equipa multidisciplinar, através de melhoria das vias de comunicação e aumento de feedback sobre situação atual de cada utente, no sentido de aumentar a sua participação em atividades de lazer, estimulá-los para a realização das AVD’s, além de orientá-los a desenvolver a sua capacidade de adaptação, em resposta às limitações físicas que apresentam.

Por fim, salienta-se a extrema necessidade de efetuar outros estudos deste género nas Unidades de Internamento da RNCCI, no sentido de se comprovar o impacto da intervenção da Fisioterapia na capacidade funcional dos seus utentes e definir novas estratégias de intervenção.

C. Pereira, J. Margarido & S. Lourenço
 
 
 

BIBLIOGRAFIA

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